segunda-feira, 30 de abril de 2012

neblina no Rio





Durante o voo você fechou os olhos sonolento 
eu abri os olhos para o céu 
e toda a paisagem aérea me puxou para fora... 
Vi os rios serpenteando 
por entre os relevos verdes e
me vi independente no meu voo 
desprovido da grande capsula 
que me mantinha sentado confortavelmente... 
Nenhum pensamento era completo, 
logo tudo se decepava e dissolvia 
á cada visão detida na paisagem lá fora
o sobrevoo me trazia sensações inusitadas, 
você virou pro outro lado 
eu me virei para a janela 
nenhum dos passageiros parecia interessado
em montar histórias com bocados de nuvens 
que passavam lentamente pela janela da nave
estrias verdejantes como retalhos de musgo 
cobrindo a terra lá embaixo
veios d'água encharcavam plantações 
aglomerados pontos na imensidão ... 
ajuntamento de casas
edificações
denunciavam 
a cidade plantada entre montanhas
e o mar 
o mar-oceano se estendia longe
numa provisão de azuis 
contornando o horizonte
intermináveis azuis
e azulavam tudo á minha volta...
Você facilmente dormira 
e eu desmaiado no horizonte, 
belo horizonte...






Marcos Segala

ainda era Abril




Lembro-me do vento 
batendo no meu rosto 
arrastando meus cabelos pelo ar
refresco 
e delicias
uma carícia abrandada
prolongada
como um voo
pássaro nas mãos
pés fora do chão
depois
o tempo 
me confiou no rosto 
um novo rosto
e me disse amigo
vamos recomeçar...


Marcos Segala

sábado, 28 de abril de 2012

estende mais o meu dia




Um tempo
contigo separado
sem os previstos atrativos distraídos 
que te apartam de mim facilmente...
Ah
se te distraio um pouco e ganho
inteira a sua atenção 
traspasso
transpareço logo contentamento e agrado
agarro o tempo com as mãos...
horas ao teu lado sonho
restituir assim risonho
os atrapalhos todos que te apartam de mim...




Marcos Segala

quinta-feira, 26 de abril de 2012

quietude



Tudo
quieto
parado
como se a realidade
fosse
fotografia
esculpida
e nada acontecesse 
de fato
cronometrado no tempo
existido
no tempo animado
voado...


Marcos Segala

quarta-feira, 25 de abril de 2012

o tempo não pára







Tive mesmo de sair correndo

O tempo não pára e por nada espera

E um segundo que esperasse chegasse

Era segundo passado pr’outra era

Corro tenho pressa e fôlego me falha

Tanta coisa tenho por dizer que falta

Tempo entre uma e outra concordância

Não discorda comigo, pois o tempo não alcança

Que eu lhe diga tudo a começar de novo...

Ouça,



Marcos Segala

sol e lua





Meus olhos
nos teus olhos
ver-te
flerte
dos astros
no céu
dos teus olhos
nos meus...


Marcos Segala

terça-feira, 24 de abril de 2012

imagem e ação







Imagino o que eu quiser
imaginar
sou dono dessas terras 
por aqui e alem mar
como o sonho de menino
colorindo o bê-a-bá
se quiser montanhas
vales
neve
sol
calor de verão
flor
néctar
água de rio
cachoeiras
fontes
nova estação
ruas apressadas
abarrotadas 
gente
vindo 
transmeando
gente voltando
o que eu quiser eu tenho
um castelo
um chalé
uma choupana no meio do nada
e vejo
e sonho
galopando
imaginando nuvens pedaços de ação recortadas...




Marcos Segala





Tempo de treinamento




Esperamos noites, 
dias que viriam, 
nada acontecia 
nenhum movimento nos barcos, 
onde foi toda a gente? 
Ninguém mais faz a travessia
Que saudades do outro lado do rio margear, 
gente entrando e saindo, 
gente de longe chegando, 
indo e vindo, 
dias agitados se propondo 
Uma ponte foi erguida; 
desviaram a rota e ninguém mais passa por aqui. 
Dias vazios sem importância, 
longos dias vadios intermináveis, 
até que você veio forasteiro, 
sorrateiro, 
confiado, 
confiante 
e tomou posseiro lugar no barco 
e já toda tarde ao fim da tarde 
vem fazer de minha proa nua a sua sala permanente... 
Agora em peripécias 
e aventuras noturnas 
saímos para pescar!                                                                                               

Marcos Segala

segunda-feira, 23 de abril de 2012

abelha bela e a bela flor







Veio ziguezagueando  

voo decidido

Como se fora para a flor

Uma dança de acasalamento

Graciosamente bem cuidada

A fim de não ofender

Tal delicadeza

Exposta ali toda a brandura

A flor pendurada linda

Esbanjava no ar toda doçura

O vento espalhou cumplicidade

Lançou no ar como num sopro

Aromas e perfumes preciosos

Abelha néctar mel e flor

Tudo num mesmo cheiro continua

O doce bálsamo perfumado

De poder hipnotizado

E o coração em transe na estação

Romance em um momento

O drama cortejado o pouso

Sessão da tarde anunciada

Cheiro de amor campestre

Na cumplicidade amena do meu jardim...



Marcos Segala 

reflexo








Na verdade a todo instante

Meu pensamento anda á volta

Com a tua imagem

Palpável intrínseca fantasiosa altaneira

De modo que eu nunca soube exato

Discernir

O quanto de ti mesmo está comigo

Ou trago em mim

Quando perto estejas

Ou quanto longe te deténs

Uma e outra coisa

É tudo a mesma coisa...



Marcos Segala

domingo, 22 de abril de 2012

meu refúgio




Quando cheguei aqui eu já não tinha comigo nenhuma ternura de sobra andava sombrio descaído entristecido eram tantas sombras tantas dobras que se foram toda a ternura e a vontade... Depois fui tomado de tanta gentileza e alegria, regozijo que mesmo tendo eu tão pouco e nenhum alento me renovei de fato mergulhado posto isento nas cândidas águas do teu conhecimento, contentamento, deslumbramento...

 Marcos Segala







como se fora brincadeira de roda...




Um cano d’água estourou ali na esquina

Vamos brincar que chove sem chover

Corro ziguezagueando feito louco

Aproveita!

Logo vão querer deter a evasão

Descobri brinquedos gratuitos

Quando tudo falha e o caro fica escondido

Aproveitar o tempo quando há intempéries

Que nos entretém favoravelmente nos 0800

A vida é de graça não custa nada... 

Vem daí,


Marcos Segala

sábado, 21 de abril de 2012

vida suculenta








Larva voraz dentro do fruto
Lagarta insana faminta
Olhos mãos boca dentes
E o amanhã nem existisse
Desvairado “bon vivant” o presente
Dádiva pão de cada dia
Meu corpo inseto de asas provido
Adoço a alma clorofila
Seu corpo flor perfeita
Imaculado o fruto bendito
E a minha aparição refeita
Alma asa de borboleta. 


Marcos Segala

quinta-feira, 19 de abril de 2012

tranbordamento







Claro
te reclamo
chamo
estranho sua ausência
não me conformando
visto 
que minha poesia
sobrevive
disso,
tua fala
tua cara
tua seda
teu viço
e eu derramando rimas 
na nossa estrada...




Marcos Segala

café com fé





Se quiser sentar e conversar um pouco

Passei um café e o cheiro nos alcança

Pronto,

Mesa posta e pernas plantadas no chão

Daqui não saio pra nenhuma outra ocupação

Boca ocupada mais um gole e calo

Sou-te todo ouvido...

Pareces tão cansado afoito

Uma boa prosa te repousa um pouco

A preocupação aflita rouba logo o riso

Um calabouço poço pra grande aflição

Estende a mão alcança o teu café

Vais ver que logo estarás de pé 

Uma boa prosa nos anima a fé
                                                       


Marcos Segala

quarta-feira, 18 de abril de 2012

fora do normal




Se as coisas te são anormais

vistas aí da tua janela

se tens vistas pra elas

se anormais te são em medida

ás coisas normais que te são

não sei se serão mesmo minhas

as coisas anormais que te são... 


Marcos Segala 

o poeta e sua língua fotográfica


O poeta

Não usa máquina fotográfica

Ele vê a imagem

Lê e capta com os olhos da alma

E registra em palavras

Escreve

Descreve

Transcreve

Insere a alma anotada

Subscreve

Revela intruso a imagem posta

Passeia a língua pela idéia esboçada

Mete o dedo na ferida exposta

Rompe o hímen da flor desvirginada antes mesmo da abelha

Cavalga velozmente sobre os montes e prados verdejantes

Tagarela no portão a vida alheia com palavras belas

Denuncia á público a moça na janela

Dentro da sala só Deus sabe, sabe ele e sabe ela...

Desvenda sendas antes desnudas

O poeta e a sua língua esferográfica

Revela rimas de auras transbordas

E se eu pensar que os meus versos copiosos

Não descrevem em foto a imagem imitada

Eis que traduzo ao pé da letra dentro

A emoção me escapa ao pensamento

E deixo a imagem á beira do caminho

E por fim ela ficaria assim

Digna de quem a encontrar

Palavra tomada e querida

Quem encontrar lhe será dono...



Marcos Segala

terça-feira, 17 de abril de 2012

a chave




Há dias
parei aqui em frente á essa porta
a chave está 
do lado de fora
como que esquecida
ou sistematicamente
estrategia para que eu abra a porta
mil coisas me passam á mente
imagino
vejo e revejo
o que teria do lado de dentro
onde o giro da chave 
fechadura
me levaria
haveria volta depois de entrar?
talvez me fosse um abrigo
quem sabe um lugar amigo
um refugio escondido
talvez eu tivesse a chave comigo
sempre e livremente
indo e vindo
quem sabe alguém me espere
lá dentro
quem dera algum pão sobre a mesa
flores campestres num vaso de vidro
um gole de vinho tinto
como nas lendas por minha mãe contadas
havia sempre lareira e fogo brando
um bule de café fresquinho
e o cheiro de festa caseira dominando a casa...
crianças me olhando curiosas
querendo saber de tudo lá fora
um lugar pra recostar
uma cama pra sonhar
uma canção de ninar
já pensou numa banheira?
o cheiro perfumado 
sabonete e shampoo
bolhas de sabão subindo a cumeeira
e o azul dos azulejos nas paredes
banheiro todo cheio de vapor...
toalhas macias
quase um abraço
uma caricia hospedeira
um tapetinho ao pé da cama
um par de chinelos á minha espera
uma lâmpada acesa 
e um livro de cabeceira...
Eu aqui parado do lado de fora
não entro
meu Deus e agora?
Por que não me permito ser feliz?


Marcos Segala




noturno





Era quase madrugada
noite avançada
meu passo encontrou o seu
e mãos se entrelaçaram
corpos se enroscaram 
facilmente se abraçaram
num balé frenesi emocionado
no entanto
nem lua no céu havia
nenhum olho alheio nos vigia
vigiamos
que alguém nos visse
sobressalto
vulto de amor 
entre as árvores...




Marcos Segala

segunda-feira, 16 de abril de 2012

tormenta







Sabes
bem 
o que fazes
eu por mim
não entendo nada
já teria posto tudo
a águas de batata
resguardo 
as palavras
considerações
e os meus temores
aprecio
o desanuvio
em que emplacas
o mar e a tempestade
bravamente
abrindo caminho 
impossível
sobre as ondas do mar...




Marcos Segala

advindas



Vivo 
num casulo secreto de minha alma
aguardando
asas prometidas




Marcos Segala

anseio liberdade






Se me deixar
a salvo
livra-me de vez
desta cela nua
chão molhado
escorregadio
aflito
facilmente me aperto
entre as paredes de carne
que me cercam
me adestram
comprimido
meu casulo
quase desforme
tão conforme
igualado
ao modelo planejado 
atribuído de vez
ás asas que virão
projeto de vida
instalado
asas que levem
da consciência ao labirinto humano
preciso 
da vontade 
que me domina
e escraviza nesse corpo fechado
abro os olhos e vislumbro
um mundo 
todo
horizontado
formatado 
linha distante e contínua
acredito
longe lá é o meu lugar...






Marcos Segala

sábado, 14 de abril de 2012

exaltação




Quando me chamou eu fui e vi que seus olhos dentro dos meus olhos facilmente se mesclavam num baile decisivo contundente incisivo decidido previsto, quando me viu me chamou e eu fui por que vi dentro dos seus olhos facilmente os meus olhos mesclados os seus nos meus convertidos decididamente me vi no seu olhar resumido nesse olhar abalado ritmado sacudido fascinado entardecido dilúculo amanhecido acordado renascido... Quando me amou amei e fui contigo revivido.


Marcos Segala

sexta-feira, 13 de abril de 2012

equidistante equilibrado





Lá estás

Tão distante de mim mesmo
                                                                                                                      Afastado
Meu coração ficou

“Mais grande” alargado

Debulhado
  
Espalhado  

Exilado longe derramado

Demudado

Dilatado

No tamanho prolongado

Equidistante o coração apegado... 

Conformado

Embora junto

Bem lembrado                                                                                       

Separado

Quem dera me tivesses tu ao encontro dos olhos me resolverias em 
cura a dor que dilacera o coração de ti ausente uma vida toda...   

Consternado... 


Marcos Segala

quinta-feira, 12 de abril de 2012

preservas-me



vi que me tocas desde o ventre conhecido
tecido desembrulhado aos teus olhos no ventre de minha mãe acudido
do mar dos olhos dela derramado soluço vertido
 imagino se não tivesses vindo intervindo
o que teria sido migo sem tigo
apartado perecido desaparecido  
nem tigo nem migo teria sido se por ti não fosse reconhecido
por tudo que tenho contigo
Agradecido...


Marcos Segala 

quanto temos ?





tenho alguém 

que me tem quando me tem

e quando me tem 

eu tenho alguém que me tem

quanto me tem alguém que eu tenho ?

quanto tenho 

quem me tem ?

tenho e tens e tens e tenho...


Marcos Segala