Outras tantas vezes tantas eu multipliquei as horas passadas
ali no sofá da sala debaixo da janela e persegui com o olhar as estações que se formaram combinando mudanças nas copas das árvores do meu jardim. Vi os galhos se desfolhando
e secar como se a vida não lhe pertencesse mais. Vi galhos inteiros se partindo,
arrancados pelo vento e cair por terra depois se encher de brotos rompendo em
folhas outra e outra vez, renascendo logo florescendo e outros galhos novos
apontar... Vi essa árvore, lar de muitos pássaros aninhados nos seus galhos
renovados, e na renovação flores se abriram colorindo a vida, a minha rua, minha
estrada. Vi tantos céus em nuvens chumbos se formando, céus encharcados de
pesada tempestade, céus acinzentados esbranquiçados, dias nublados, frio
invadindo a minha casa me congelando os ossos e arrefecendo minhas ilusões... Dessa
mesma janela em dias ensolarados, claros convictos de colorido abrasador, tive
a alma aquecida insólita de esperanças mornas, acalorada a branda poesia dentro
de mim, pela janela vendo o ziguezaguear de insetos voadores, pousadores
ligeiros de flores furtando nectar adocicados em primavera e verão...
Marcos Segala
Marcos Segala

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