Quis fazer as malas antes de dormir, mas por algum motivo que me fugiu á ideia, desisti e adiei para o
dia seguinte, ainda terei tempo pra isso, conclui decidido a adiar realmente a arrumação das malas, percebi ansiedade no assunto e busquei lembrança do que não poderia esquecer de
levar comigo na viagem, deitado em minha cama, com o radio ligado, fitei o teto... Um ritmo
relembrado por uma orquestra dos anos 1950 e de repente o teto do meu quarto já
não era o mesmo teto nem meu quarto, meu quarto era. Logo outro lugar, outra época, outra
instância, outra cor, outra história e eu nem estava lá. Vi minha mãe com saia
rodada plissada, cabelo preso como em dia de festa e minha irmã num claro
vestido godê ... “just way you look to nigth” E a música mudara tudo á minha
volta me remessando de imediato a cenas ocorridas em longínquo passado, cada nota tocada, cada sílaba entoada e toda a sintonia, nada do que me vem á lembrança me pertence mais, nem eu a mim mesmo me pertenço, outro rosto me encara no espelho... A mesma música que atravessou o tempo me encontrou distante e alterado no meu eu de dentro, no meu eu de fora e no meu pensamento... Tudo mudado... A mesma música...
Marcos Segala

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