quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Minha Avó, avozinha.




O que eu quero relatar, não é imoral ou amoral no conteúdo em nada indecente do que conheci nas mãos de uma senhora idosa que viveu do outro lado do Atlântico no país que descobriu o Brasil.

Para custear os meus estudos tive de fazer muita coisa, durante os anos vividos no velho mundo. Escolhi fazer aquilo que me coubesse bem o fazer com gosto e interesse, e algum bom apetite para continuar fazendo até ao fim da tarefa pronta...

Eram anos em que eu celebrava juventude nos vinte poucos anos... Quando cheguei àquela casa o alvo seria outro... Mas os papéis se dispuseram de modo diferente e fui logo adotado como neto pela avó quando me apresentaram a ela nos primeiros momentos que adentrei a sua casa.
Estendi a ela as minhas mãos e beijei-a no rosto. Ela desviou o olhar repentinamente quando busquei os seus olhos após o cumprimento que ela supôs ser muito intimo e atrevido... Fui apresentado á casa e ao quarto que eu ocuparia a cada fim de semana em Lisboa.

Uma linha férrea do "Elétrico" passava á porta do prédio de quatro andares, janelas avantajadas voltadas para a rua... Noites dentro, eu me sentava no parapeito da janela enorme e bem enquadrada e ficava iluminado pelo poste da rua, por entre as copas das arvores, conduzindo a minha leitura a sabor do vento da madrugada e sob cantoria nostálgica e triste dos "bondinhos" e seus zunidos de rodas de ferro contra os trilhos.
A luz do poste da rua era como de uma fantasia... Uma luz amarela que repetia a sensação de luz solar nas ruas sombrias e bucólicas da velha cidade. Tudo destilava poesia e saudade. Saudade do que? Não se sabe ao certo e nem de imediato, só se sabe que o que "sabe" á saudade está espalhado no ar.
Dentro do meu quarto, uma música suavemente  baixinho, volume o bastante pra se apreciar cada palavra cantada e cada nota tangida...

Um gemido veio da sala, a sala era a sala de tudo; multiforme.
O quarto da avó era ali mesmo na sala, uma cama encostada no canto de frente para a tv, uma poltrona ao lado da cama e uma pequena mesa de apoio. Uma cadeira de braços separava a poltrona da cama.
Um único assento extra para que alguém acompanhasse a ela assistindo a um programa na televisão.
Uma grande estante de desenho moderno dominava o ambiente e abrigava a tv, e noutra parte estavam expostos antigos jogos de jantar e coleções e porcelanas e cristais e tais lembranças do dia do casamento que nunca foram usadas que não fosse ali como estavam por mais de sessenta anos, intactas e pratas e louças imortais....

A sala também abrigava uma mesa de jantar com base de metal cromado e tampo de vidro, eram rodeadas por confortáveis  cadeiras de braços num desenho leve de metal e palhinha trançada, peças de algum designer dos anos mil novecentos e setenta... Duas aberturas de entrada nesta sala uma conduzia ao corredor de distribuição dos dois quartos e único banheiro. Outro vão levava ao Hall de entrada, escuro sem iluminação natural e abafado, daí se ia também para a cozinha e área de serviço. Ainda uma outra porta que comunicava a sala com uma sacada ampla, era antes um jardim de inverno que com o tempo tinha se tornado num grande depósito entulhado, espaço onde tudo o que não se usa mais ai parar ali. - "Vai que se necessita de alguma coisa, estará ali ao alcance da mão".

Esse portando era o quarto-casa da avó. Nesta casa eu estive por bons, por grandes, por memoráveis dias da minha estada em Portugal e ter sido recebido com afeto tão querido e deixado ali algumas nítidas  memória e bons bocados de saudade encheram de vida e significado tudo o que eu vivi.

A avó tinha sofrido uma trombose ainda na meia-idade, uma paralisia lhe dominava o lado esquerdo que a deixou imobilizada para sempre.

Agora já bastante idosa nos seus quase noventa anos de idade, permanecia sentada durante todo o dia com tempos previstos ao longo da tarde para se deitar e descansar um pouco. Haviam dias em que ela pedia para ficar todo o tempo deitada. Não se sentia disposta se quer a ver a televisão... Durante a semana com a filha trabalhando á frente de um ateliê de costura lá em baixo, os personagens múltiplos de todos os programas de televisão lhe faziam companhia durante o dia...

Aos fins de semana eu chegava e lhe trazia sempre um agrado, um doce uma surpresa. Flores!

Imobilizada, ela dependia de alguém para todos os cuidados de asseio e alimentar... A filha, minha mãe portuguesa, lhe cuidava dos banhos e cuidados da higiene pessoal. Ela usava fraldas geriátricas e deviam ser trocadas em curto espaço de tempo.

Eu cuidava de fazer as suas papas e lhe dar á boca. Sem a dentadura a língua pesada pendurava pra fora e empurrava obstinadamente a comida para fora da boca. Eu me compadecia dela e não encontrava cá dentro outro sentimento que não fosse o de empatia. A imagem da sua velhice empedrecida e esbraquiçada. Os olhos tinham pouco brilho e seu jeito ranzinza não poupavam reprimendas, á principio ela se sentiu temerosa e envergonhada em ter de ser cuidada por um jovem estrangeiro, um estranho brasileiro.
Por vezes era ríspida e insípida.
Passávamos longas horas juntos, sentados lado a lado, e ambos instântaneamente instalados em mundos diversos. Quando lhe buscava algum assunto, ela resmungava palavras inaldíveis, indecifráveis, sua língua pesada do lado de fora da boca impedia a articulação liberal das palavras e só com certa dificuldade poder-se-ia entender o que dizia. Ela as vezes esbravejava mesmo palavras que eu não conhecia no meu brasileiro português... Risos.

Pode ser que nesses momentos ela me amaldiçoasse ou apenas xingasse a minha mãe...!

Desde o primeiro dia, eu estava disposto a descobrir nela a avó que eu não tive, minha era órfã de mãe desde muito menina. 

Aos poucos ela foi cedendo lugar para alguma afeição e sua armadura de aço blindado ainda coberta de gelo, foi deixada de lado. Não a vi usá-la nunca mais... nos próximos três e meio anos que passamos juntos.

Quando eu vinha á casa cabia a mim ficar com ela.
Então eu lhe fazia com gosto as papas, e os sucos e lanchinhos e lhe cortava as frutas e lhe achegava á boca, o pedaço, a bocado de pão partido e o copo, e o prato, o talher, o guardanapo e o avental... Seu constrangimento a tornava impulsiva e intimidada. Não me olhava nos olhos ainda.

Fugia do meu olhar,
mas quando eu me assentava longe, junto á mesa de jantar, enquanto me ocupava de alguma tarefa da escola ela me observava em detalhes, me examinava como se eu fora um de seus pupilos, nesses momentos seu rosto se iluminava e a vi com os olhos sorridentes tanta vez! Então, sempre que eu olhava para ela pra conferir para onde estivesse olhando ainda me sentido vigiado... De imediato ela virava o rosto e fingia não me olhar.

Isso foi crescendo e desistimos de usar palavras pra nos comunicarmos...

Inventamos uma linguagem nossa pra falar mais alto que se pudesse ouvir...  Nos dias em que eu segurava as suas mãos enlaçadas ás minhas enquanto eu lhe cortava as unhas, enquanto nossos braços se tocavam e aquele toque era o calor que ela já não sentia por anos a fio... O gelo foi sendo desbancado, derreteu!

Nem o sol e a sua claridade plena alcançavam o cantinho onde estava a sua cama. Por ordem dela mesma, as portas da sacada deveriam estar fechadas para filtrar a luz que vinha por esta única passagem de luz de todo o ambiente. A luz lhe feria os olhos então as cortinas se cerravam quando a porta precisava estar aberta.

Eu também lhe cortava os cabelos e isso intuitivamente, renasceu nela a atitude de uma mulher vaidosa de novo. Á medida em que lhe cresciam as unhas e as madeixas, era a medida em que lhe crescia um rejuvenecimento constante e seu coração-mulher-pessoa fora despertado de novo!

Cresciam a afeição e apreço por minha pessoa. Lembro-me da primeira vez que ela me sorriu e em seguida gargalhou uma risada ressuscitada da alma!

Ela passou a pedir a dentadura, queria usá-la todo o tempo agora, isso corrigia suas feições em toda a área do rosto como se em momentos imediatos tivesse a fisionomia erguida de novo.
Queria vestir-se e enfeitar-se, pediu os brincos e as jóias... Cabelos cortados, unhas cuidadas, um baton clarinho pra lubrificar os lábios!
e a sua postura magra esbelta, erguida, re-erguida sobre os ombros numa posição de quem posa para uma fotografia... Ela renasceu, florescida!

Um dia ela bradou com certo furor impaciente, "Não me chamo avó, eu não sou a sua avó"! E me bradou com todas as letras o nome dela!

Descobrimos no dia a dia que nossa afeição desatara os nós e amarras da velha mulher aprisionada no seu leito de imobilidade mórbida. E ela se viu enamorada de um homem jovem que com única demonstração de carinho físico tinha sido o roçar das costas das mãos em seu rosto amigo.

Em dias que se demoravam a minha chegada ela ouvia os sons da casa e previa...



( "Ouço passos nas escadas lá embaixo... o caminhar decidido e alegre parou á minha porta, o tintinar de metais num chaveiro denuncia que ele procura a chave para abrir a porta. O aço envelhecido gira o tambor raso da fechadura que estala a cada volta... Um outro som estalido no giro da maçaneta da porta, a porta se abriu, um vento leve e sorrateiro, atravessa de imediato a fresta aberta e passando por ele espalha cá dentro da minha casa os aromas dos seus perfumes, ele chegou...! Avó sou eu Marcos, você está dormindo?Diz-me trovejando sua voz dentro dos meus ouvidos...
Como pode esse me moço em atrevido português me tratar por você, deveria me chamar ao menos de vosmecê, seria audivelmente mais respeitoso! 
Trouxe-lhe uma surpresa a avó vai gostar! risos no ar, um gotejar de emoções contentes.
-Disseste-me que virias na sexta-feira, não vi a semana passar!
-Hoje é terça avó, é feriado lembra?
-Não me lembro, já não conto mais os meus dias... conto os dias em que vens...
-Então errou nas contas... eu venho todos os dias mesmo quando não venho estou por cá... risos atravessando a sala...
-Não fales comigo estando pra aí... onde não te alcançam os meus olhos...
-Cá estou, tinha coisas pra deixar no quarto e outras que tinha destino da cozinha... Dá-me um beijo e meu xi-coração!
-Tu me pões melosa e mau acostumada!
-Aposto que nem sentiu a minha falta... Como lhe foram esses dias?
-Inebriantes!
-Pronto, vamos por remédio á isso!
O que quer primeiro? Doces, rebuçados, uma boa leitura, música, janelas abertas, luminosidade, sol... Está com fome?
-Não tenho assunto, quero estar quieta...

E eu não tinha mesmo, por mais que me esforçasse, a imagem irrequieta e jovem do moço brasileiro me aquecia mais do que o devido, me deixava exausta... Queria alcança-lo mas era velozmente agitado o bastante para me escapar... Ele agora me diz que meus olhos estão brilhantes, não gosto quando ele olha pra dentro de mim, me faz sentir-me despida.
Fico alheia e sem defesas nenhumas... sinto-me invadida! Contudo, não consigo deixar que se vá sem que eu o persiga de fato, pois que por onde anda por lá estou com ele e virtuosamente o vigio como se fosse ele o meu anjo da guarda em que aguardo me guarde e me livre de algum mau que de súbito, valha-me Deus! Pois que com ele me sinto acompanhada e se me arranjo e me visto feito moça de novo é apenas para não deixar que arrefeça o que se aqueceu cá dentro desde que ele apareceu... Terei eu aparecido pra ele em mesma medida? Ele busca o resgate da mãe da mãe dele e colo. Eu adquiri dele a afeição e apreço por mim mesma e quis me arranjar e desaparecer com o aspectro de mulher em me tornei por todos esses anos e que agora esse moço estrangeiro, já com dias contados pra de novo atravessar o mar e voltar á sua terra e sua gente. Que importa, também tenho os meus dias contados entre os dedos das minhas mãos...! Ser-lhe-ei enquanto eu possa, a avó querida, mãe de sua mãe, avozinha, mas pelo menos que eu me porte com alguma elegância e lhe receba como se recebe quem veio celebrar comigo esse encontro festivo. Ele me amando ao jeito dele - neto. Eu do meu jeito o amando - medo.

Escolhera-me o destino para ser uma mãe postiça, mãe de sua mãe...
Oras bolas! Valham-me todas as mães desse mundo que não te fizeram nascido de mim ou de mim criado... Mas ainda assim, em mim nascido e criado em mim, visto que sou mulher e já fui mãe e sei procriar!

- Ponha -me um disco de Amália, que me apetece ouvir o fado... "nem ás paredes confesso de quem eu gosto, nem ás paredes confesso". Já o tendo confessado a ti com o meu olhar, imoral? Indecente? Tornei-me confidente de mim mesma em segredos na alma já na minha idade!

Experimentarei ainda pecados e culpas?
Amarei, apenas amarei!
No meu corpo enrijecido, petrificado vejo vivo o coração de uma mulher inteira, meu coração está inteiro, coração intacto para o amor e para o amar... Debruço os olhos absurdamente vivos alentados sobre os teus olhos postos em meus olhos e vou contigo, vou contigo quando te ausentas e se esqueces de voltar á casa... envolvido egoísta nos seus afazeres longe de mim e do meu alcance de vistas... 
Estou erguida sobre os meus ombros como uma bandeira hasteada. Mastro o meu corpo esguio e ouço elogios impertinente de gente em busca de alguma malícia reprovável...

" - Avó tem estado bem bonita, o que se passa consigo avó? De onde te tem nascido todo esse ânimo de quem está de novo enamorado pela vida?"

Raios, raios duplos, triplos raios todos partam essa palavra AVÓ! Avó de todos esses que passam por mim, sou eu avó de toda essa gente? Gente que alheia de mim me julga incapaz de descobrir que decidi acabar bem a minha carreira ao invés de sentada esperar que a morte me chegue e me leve assim, já totalmente desprovida de vida e renovo e amplamente ressequida em meu coração...!
Quisera eu me ausentasse pra longe de mim mesma e me previsse perdida pelas ruas francesas, ou me perdesse e me achasse além mar pelo Brasil. Ai meu Deus, seria eu mesma aqui e lá a mesma avó petrificada a que tornou a vida na aventura e desventura de ainda me sentir mulher e completa em mim? - Saiba apenas que meu coração-mulher, não envelhece...)



Assim,
dei a ela todo o meu amor e real apreço.
Sempre que penso ter tido uma avó, tenho nela essa lembrança. Sinto-me ainda até hoje e mais de vinte anos se passaram... Lisonjeado-homenageado-sorteado por seu amor verdadeiro, quando ela me recebeu como alguém de ela há muito esperava. Esmerei em cuidar bem dela enquanto eu pude, até que nem sei se eu ou se ela tenhamos de fato ido embora de cena.
Eu na minha,
ela na dela... Um dia nos despedimos até depois...!

Meu Deus,

Quantas pessoas passaram por mim em amor!

O amor passou por mim e peço que se ele vir o meu Amado, diga-lhe que estou á espera que me ame o Amado por meio de um meio qualquer... Maranatha!

Mesmo que seja para um simples toque de mão no meu rosto se eu não merecer algo mais... Na minha (nossa) busca pelo amor!


Marcos


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