Quarenta minutos depois das duas horas da tarde, eu deveria estar herméticamente fechado dentro do meu trabalho, estou aqui num shopping center num bairro nobre da cidade, na praça de alimentação, ar condicionado pra combater os mais de 30 graus lá fora - E hoje o clima está mais ameno! Pessoas desfilam moda e exibem sacolas de compras como se os corredores do shopping fossem por sua vez uma vitrine de modelos vivos. Casais passeiam de mãos dadas, um senhor idoso lambe calmamente a pazinha de seu sorvete. Outro casal numa mesa mais próxima á minha, discutem a relação e a tpm da moça...
Tudo acontece em câmera lenta. Ninguém tem pressa de nada. Uma música embala o ritmo compassado do tempo aqui dentro.
Atrás de minha mesa, uma fonte jorra água tranqüilizante em jatos seguidos de continua música “chuá-chuê”...
Pessoas se entreolham como quem busca outros olhares num flerte disfarçado de não-procura... O sorvete do senhor chegou ao fim.
Oriento meu olhar e observo atento ao movimento.
Estou numa janela indiscreta!
Estou numa janela indiscreta!
Por que será que vim parar aqui no horário de trabalho?
Tive de acompanhar o instalador de cortinas á casa de um cliente, enquanto ele instala os trilhos e dispõe os tecidos no lugar, deixei-o no prédio em frente, atravessei a rua e cheguei ao centro comercial.
Tive de acompanhar o instalador de cortinas á casa de um cliente, enquanto ele instala os trilhos e dispõe os tecidos no lugar, deixei-o no prédio em frente, atravessei a rua e cheguei ao centro comercial.
Assisto as cenas como um espectador ávido pela próxima cena...
Amigas se encontram e trocam beijos no cumprimento cordial, ambas comentam entusiasmadas suas bolsas, adereços, suas saias...
Num relâmpago de memória atravessei em segundos o oceano e me assento do outro lado do Atlântico onde adentrei o Amoreiras um shopping na cidade de Lisboa... Revendo o tempo que eu andava por ali.
Incrível como ainda não me aparto da sua lembrança e mesmo longe levo você comigo para lugares em que você ainda não era e que por certo jamais será comigo... Lá está você atravessando a minha vida e esbarrando nos meus afazeres diários... Não sei se sou eu que não saio daí ou se é você obstinadamente que não sai de mim. Assim, misturo imagens suas ás recordações e realidades fartas de conteúdo.
As horas avançam,
as imagens do Amoreiras se confundem com as de aqui e se baralham em minha mente. Preciso de um sorvete pra refrescar as idéias!
O tédio me acordou do meu desassossego, fiquei por demais entediado da canção insólita da fonte luminosa atrás de mim. Decidi caminhar e sair do shopping, comprei um sorvete, atravessei ruas e cheguei a um parque arborizado, um lago cruza o parque e caminhos ensolarados, sombreados pelas copas das arvores fazendo que haja caminhos que convidam a caminhar por dentro deles, obedeci. De novo a tranqüilidade das águas do lago me invadiu de cheio como a fonte no shopping agora em mais largas proporções. Sorri.
A paisagem parecia congelada em volta de mim, e eu adentrando uma fotografia estática, - só eu me movia. A tarde morna e clara acontecia lá fora e eu resguardado dentro da mata... Aqui dentro nada acontecia... Uma mina d’água brotava do chão úmido, lavei as mãos, lavei o rosto como que para acordar de tamanha serenidade. Foi então que o meu celular tocou alardeando a campainha me trazendo de volta, era hora de retomar o caminho do agito e herméticas tardes de trabalho. Afinal hoje é segunda-feira!
Marcos

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