segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ghegadas e Partidas



Ainda não entendi ou não aceitei de todo e muito bem o porquê de a vida repentinamente me isolar e me deixar sozinho... Sou acometido de uma solidão enorme sempre me lembrando que eu não me basto a mim mesmo.

Quando garoto minha mãe repetia diversas vezes cada vez que eu insistia em me ajuntar á criançada da vizinhança pra brincar – “quem não tem irmão brinca só!” Então por vezes fugia escondido e me aliava á meninada para um banho de chuva disputando alegremente quem conseguiria romper a força das águas que depois de um temporal de verão acumulava-se em grandes poças dágua pelas ruas do meu bairro. Essa lembrança açucarada me veio tão forte e tão viva agora! Todo o absolutismo da vida ainda não fazia parte daquela fatia de tempo que resguardava os meus nove anos de idade.

Lembro-me atado a essas visões do passado, um fragmento de desconforto no semblante e olhar abatido de minha mãe na sua figura melancólica que pulverizavam de realidade minha infância cercada de prazer e percorriam o imaginário, o irreal e o fantástico. Colecionei eventos que misturam alegria e desconforto... Mamãe também era uma pessoa muito solitária!

Hoje, domingo, dia em que eu poderia dormir até mais tarde e descansar dos afazeres corridos de toda a semana...  Bem cedo de manhã, com o corpo habituado despertar e aprontar pra enfrentar o dia, logo e no mesmo horário de todos os dias já estava disposto e desperto.

Simulei uma serie de exercícios de alongamento como que me espreguiçando, coloquei um CD pra tocar e resolvi ficar ainda mais um tempo deitado.

Simulei também outros exercícios diários de esquecer você! Aborreci-me de novo com a ideia; noutros tempos ainda tão próximos num domingo ou feriado, as manhãs eram imersas em abraços, carinhos e afagos e o dia começava pra nós dois só depois já bem mais tarde...

Mas isso ficou registrado como fotografia em um porta-retrato da minha memória.

E que ao ver você hoje se ocupando de outros afazeres que não mais os nossos, me faz perceber que errei no tempo e que nossa bela fotografia desbotou e perdeu a cor!

Levantei-me e tomei meu copo dágua em jejum, preparei um café preto e voltei pra cama, alcancei lápis e papel e me pus a escrever o que temos como texto pronto agora; confusamente aquela velha sensação de prazer e solidão manifestou-se presente... Embora sempre tenha sido desse modo e desde que me lembro nunca foi diferente; cada vez que alguém vai embora o seu caminho, deixa um rastro de vazio e solidão para trás e em mim instalada. Não poucas vezes, um vai e vem frenético de gente entrando e saindo da minha vida, como se eu tivesse a casa de mim mesmo projetada no saguão de um aeroporto movimentado – numa casa de passagem, onde chegada e partida fossem coisas corriqueiras de se prever e assistir.

Eu sofri, cada vez que meus tios e primos vinham do Rio de Janeiro passar as férias em Goiás e ficavam o mês de Julho nas férias escolares em nossa casa e regressavam de volta ao Rio... Eram dias promissores para além dos presentes e novidades que traziam da Cidade Maravilhosa, mas quando se iam embora, a casa ficava vazia e isso incluía o desaparecimento das guloseimas que foram servidas e que pertenciam á refeições propositalmente gulosas de nossa mesa posta para as visitas, o nosso melhor era oferecido e eu esbanjava junto!
Então, o trivial arroz e feijão tomava de novo o seu lugar e o trivial da vida também cercava as minhas brincadeiras solitárias e devolviam os meus personagens imaginários numa tentativa de compensar e me refazer por ter sido deixado só outra vez. Logo o retorno ás aulas e o ritmo dos afazeres cotidianos eram retomados e tudo tomava o seu lugar comum marchando de novo de encontro aos compromissos de hora marcada. Sobrava muito pouco tempo pra me encontrar comigo mesmo lá no alto de um abacateiro que dominava o quintal de nossa casa, onde eu tinha uma “casa da árvore” improvisada em sua copa gigantesca.

O que vivi com você foram como longas “férias” maravilhosas e outra vez como menino não me poupei de nenhum brinquedo novo que você me tenha trazido até ao triste momento quando inevitavelmente de volta aos compromissos tivemos de dizer adeus e separar-nos.

Mas deliciosamente me encho de alegria e contentamento uma vez que um pensamento otimista e compensador me domina, pois que teria sido terrível se você jamais tivesse estado comigo no tempo que juntos desfrutamos! “... Outros Outubros virão outras manhãs plenas de sol e de luz...” Sempre foi mesmo assim, ora com os primos na infância saturada de encontros e despedidas, ora depois na vida adulta percorrendo vida fora os países pelos quais cheguei e depois me despedi de todos os lugares em que andei, sempre pronto a retornar ao ponto de partida onde residia o meu lar e minha família, minha pátria e minha nação; morei em tantas casas como cidadão do mundo sempre um estrangeiro  num vai e vem ritmado e constante que tornou preciosa a minha simples e grata existência.

A amiga Marlúcia também se foi quase que precocemente, eu estava morando na Inglaterra quando um câncer fulminante desapareceu com ela aqui no Brasil.  Mas todo o doce que ficou na minha lembrança, ficou de um tempo promissor e largo, como que sorvido prazeirosamente até o arrefecer do café com ela apreciado numa grande caneca ao longo da troca de nossa amizade. Mas ficou a sensação de que o Senhor a tenha recolhido muito cedo!

Em meio a um largo sorriso dentro do meu contentamento, olho pra tudo o que conheci e conquistei e tudo o que ficou para trás, noto que vivi como amante de uma vida intensa, vivi tanta vez como um caramujo carregando em mim mesmo a minha própria morada desprovido de paradas certas...! Tenho alma e sangue de quem vive em tabernáculos, em tendas e casas de passagem e lugares emprestados; como o burrinho tomado emprestado para conduzir o Mestre na entrada triunfal em Jerusalém, como está escrito... Diz-se apenas que o Senhor precisou dele e eles o cederam sem nenhum transtorno.

Um dia certamente eu terei de me despedir de todos os depositários de bens transitórios que a vida me trouxe como rica aquisição, pessoas e sentimentos que beneficiaram e abasteceram a minha vida pobre vida rica, tudo aquilo que ganhei de Graça como combustível para uma vida preciosa que nEle ganhei.

Marcos

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