terça-feira, 16 de agosto de 2011

A minha casa sou apenas eu mais largo!

Casa,

meu ninho, veículo, habitação, porto-seguro, aconchego, acolhimento, casulo, meu abrigo,

barriga-de-mãe,

refúgio ou apenas o lugar em que se encontra um cantinho pra ser ou estar, dormir e descansar, sonhar e subverter as mazelas do mundo lá fora.

Um barco largado sobre as ondas do mar...

A casa me guarda dos medos e de agruras, das tempestades e amarras da imposição,
das ameaças e más lembranças. 

Mas também dos sopros malditos do bicho papão; a casa resguarda os sonhos, o consolo e o conforto simples do café e pão quentinho derretendo a manteiga, pois que para mim luxo é ter identificado um lugar que acolhe a poesia e os feitos do coração.

A cama, o sono, o sonho, o banho, a mesa, o pano de prato, o avental, a cozinha... O carro, a garagem, a sala, a varanda, o jardim e o quintal. A sombra produzida pela velha mangueira que me lembra o lugar querido da minha infância, "meu pé de laranja lima" e do triste "Coração de vidro"... Simplesmente lindo!
 

Os frutos colhidos no pé e comidos ali mesmo, boca salivando!

Gosto do balanço de corda amarrado na viga da varanda no vai e vem de lembranças de tempos que já foi e que não voltam mais... Como o vai e vem das horas!

Gosto da poltrona no canto da sala e do velho tapete persa no chão;
Gosto da luz amena do abajur,
Gosto do colorido das obras de Antonio Poteiro...
Gosto das louças herdadas de minha mãe e das lembranças que simbolizam na minha a casa dela.

E referências de viagens e das fotos de pessoas amadas...

Gosto das taças que brindaram dias de festa e alegres celebrações tanta vez.

Gosto das flores e alguma arte salpicada.

Gosto das aquarelas que pintei ainda nos anos do Instituto.

Gosto da caixinha repleta de colagens de fotos de Amsterdam – coisas do coração!

Gosto dos aromas que cercam a casa, vindos da cozinha em dias de domingo em que o simples almoço vira dia de festa!

Gosto das camisetas brancas da Ana Clara sujas de morango e vermelho-framboesa, difíceis de limpar as nódoas da sua gulosa alegria.

E os deleites da Esther por doce-de-leite condensado, cozido em 1 minuto no microondas...

Minha casa guarda lembranças e sabores de todas as idades que já tive, de todas as idades que tenho.
E preserva memórias sem nenhuma melancolia ou presunção, apenas a constatação alegre e boa de que vivi dias de grande contentamento em doce generosidade e prazer.

E no corpo da casa, e dentro e fora de mim, e nos meus guardados todos, e nas gavetas e documentos escritos e armários de roupas...

Todos os acessórios que uso ou que mantenho apenas como referências felizes do que gosto em mim...

Gosto do cheiro que invade a cena após o banho
Após-barba
Uma colônia e gel para o cabelo.
E o cheiro de mertiolate quando corto o dedo...
Gosto do cheiro agradável de roupa lavada e sabão em pó.
E o amaciante que anunciam que a roupa foi lavada e passada com esmero.

Não tenho empregados,
eu mesmo traço com as mãos os feitos do coração
e seus efeitos.


Marcos Segala





























 

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