sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Histórias de ouvir e contar...




Eu era menino e soube então
tomara o meu pai o caminho da vida
e eu o conheço através de histórias por minha mãe
contadas,
farrista e boêmio eu quase nada sei
só sei que o amo e dele precisei.
Fiquei sozinho bebendo tristeza
embriagando esperanças de vir um dia a semente
que germinou o meu ser...
Mas que a brutal realidade dos meus dias
me fazer selar uma frase,
não preciso mais de você!

Escrevi isso quanto tinha os meus dezesseis anos de idade e
guardei o texto decorado na memória sem nem saber ao certo
como isso teria se apegado tanto á mim.

Eu conheci o meu pai já com vinte e quatro anos de idade e só dois anos mais tarde obtive um registro que o obrigasse a me dar o seu nome...

Na verdade, talvés haja mesmo um tanto de angustia nessa história toda, ela ditou muita rejeição para os meus dias, mas também promoveu que se avantajasse em mim uma solidez de propósito que me reconstruiram por dentro e me levaram a honrar e amar ao meu pai desprovido de qualquer permuta de sentimentos...

Isso me deu de mim para mim mesmo, uma visão mais definida de que não se decide prontamente, a amar como troca ou recompensa.

Ama-se por que o bom sentimento de amor se acha instalado dentro de nós pronto a ser doado e entregue ao objeto de nosso amor.

Quem ama não está preocupado se o ente amado merece ou não ser amado, ser querido ou desejado. A consideração de quem se descobre ser capaz de amar, ama sem que questões racionais que determinem merecimento ou compensações...

Amei o meu pai extamente assim, certo de que eu não poderia esperar dele fiel correspondência. Não ouviria dele a palavra filho, e o que o eu viesse a conhecer como significado de ter um pai, dependeria muito mais de mim mesmo do que dele de ante-mão proporcionar. Ele faleceu há poucos anos, sem nunca conseguir oferecer ou mesmo me salientar e transmitir essa idéia paternal.

A gente aprende a desempenhar dons e talentos também por aspiração daquilo que nos faltou e acabamos por exercer e executar melhor papel do que aquele que naturalmente já está inserido nos guardados dos nossos mais profundos instintos... E o da paternidade é só um deles!

Curiosamente, depois que tornei-me pai, tornei-me num melhor filho na relação amigável com minha mãe, terno e atencioso, um tanto consternado pela lúcida constatação dos nobres sentimentos que dominam o coração de um pai.

De que são feitas as relações humanas? Quase sempre e á miúde se fazem de desumanas relações...

Meu pai nunca se achou na obrigação de ser pai e ser presente. Isso não dosou o que eu desenvolvi como bom sentimento por ele, imerecidamente, devolvi a ele prontamente o que me foi dado gratuitamente pela vida e não por ele e que reconheci que a ele pertencia e fiquei desprovido de alguma dívida de dádiva a ele concedida... Não houve troca nem permuta, foi uma doação espontânea. Unilateral. Privou-me a amizade, o companheirismo e a identificação filial. Mas o honrei e o amei até que seus dias se encerraram e não o vi mais. Não ter-me ressentido do mal deixou-me motivado a pensar que devo estar ápto e aberto a relações de apreço e fraternidade sempre estando no que depende de mim, em paz com todos os homens, e isso começou com ele aprendido; mesmo tendo sido desquerido daquele que me faltou. 

Hoje, me apanho pai de filhos queridos e outros filhos que não são meus filhos, têm outros pais e outros lares distintos, mas sinto abundantemente, que poderiam ser todos meus, nascidos no meu colo e frutos da minha mocidade!

Incrível como o tempo é capaz de mudar e transformar tudo e todas as coisas perecíveis... Tanto pode arrefecer o chá quente, como sela feridas em cicatrizes anunciadas a cura e superação. De modo que no tempo, há remédio contido para todas as mazelas que vão sendo esquecidas, abramdadas, sucumbidas... Basta um pouco de tempo e o que há de vir virá, e todos os imprevisíveis presupostos da vida se diluem ou se tornam então visíveis num tempo previsto.

Pai, na verdade, sempre e mais, precisei de você!

Marcos

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