segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O doce da Palavra


 

Para quem tem como eu de controlar a glicemia numa dieta,
um pouco de doçura tem de vir de outras fontes que não seja puramente o açúcar.
Palavras degustadas como bala doce,
rebuçado português,
caramelo derretendo em gulosa boca.
Sorvo palavras como quem suga o frenesi açucarado emocional do doce proibido...
Palavras também entorpecem.
Ás vezes loucamente como alucinação
transbordam os pensamentos generalizados, avulsos, descompassados, efervescestes, apressados e idéias repletas de conteúdo frenético me cercam e arrebatam...
Estonteantes quando surgem num momento quando lápis e papel não estão ao alcance da mão para um registro possível; quase um desatino torna-se inevitável.
Repito de mim para mim mesmo várias vezes a idéia proposta nascida de repente sem o socorro do parto e registro da luz...
Recito repetido entusiasmado quase em pânico na tentativa de deixar vinculado á memória até que possa então dispor de um registro escrito.
Quero sempre e desde sempre me dar á luz da Palavra e ser um homem de palavra.
Ser um homem da palavra.
Impõe grande responsabilidade, visto que se parece tão bem com a mesma vigilância imposta pelo “diet” do controle glicêmico que me preserva a vida com saúde.
Mas pra compensar a falta de açúcar acumulado,
não poupo afeto mesmo quando me lembro que o cordeiro da páscoa judaica era servido com ervas amargas.
A vida em liberdade tem por certo algum amargor.
Afinal coube áquele que me libertou em páscoa santa – santa passagem, amargo destino que lhe custou a vida numa maldição desonrosa morte de cruz.
Eu, livre alegre entusiasmado e doce.
Ele, morto no amargar do luto descrito.
Eu amargo o luto do Seu sacrifício,
Doce o terceiro dia da ressurreição.
Palavras também entorpecem e são capazes de matar,
De ferir
E marcar profundo num êxtase masoquista de ver tombar um corpo.
Palavras também desintoxicam e são capazes de salvar vidas e edificar entendimentos e levantar de uma queda e libertar aprisionados por aguilhões da ignorância e desconhecimento.
Sorvo palavras como quem deixa derreter na boca um rebuçado português e bala doce degustada bem devagar. De-vagar-doce-de-leite!


Marcos



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