terça-feira, 10 de abril de 2012

poeira baixando




A profusão de poeira na estrada já tinha abaixado, um vento rodopiava espalhando velozmente a nuvem avermelhada de pó desvencilhando outra vez nítida a paisagem... Quando cheguei a casa, um black out de energia elétrica dominava todo o meu bairro e densa escuridão tomou conta do lugar por horas... Entrei em casa tateando pelas paredes recordando o caminho até a cozinha onde possivelmente eu teria acesso ao lume do fogão que me daria luz a uma vela acendida. Nada, o fogão só funciona acionado por energia elétrica, sem fósforos em casa, não tive acesso á chama do fogão.
Eu me sentia exatamente assim, como se suas palavras tivessem passado por minha estrada e levantado uma grande nuvem de poeira acentuando tudo a uma ligeira confusão de me obrigar fechar os olhos pra proteger as vistas... Essa sensação estranha me dominou por horas, razoavelmente analisei o que eu sentia tentando dizer a mim mesmo, que não há por que ter medo do escuro, mas não era de todo medo, era uma emoção que esboçava uma total aversão a ficar ali sentado no escuro, quieto, sem nada ouvir, nada ver e nada fazer, imobilizado no meio da escuridão.
Um misto de solidão e pavor me absorveu facilmente; saí á garagem e percebi um céu centenas de vezes mais iluminado, nada comparado á todas as noites quando a luz da iluminação pública dos postes de energia estão em pleno funcionamento, o céu fica num claro embaçado, mas agora, diante de tanta escuridão, qualquer ponto de luz, uma pequena estrela ganha um brilho radiante e volumoso. Aquietei-me prontamente vendo o céu sobre mim e tudo foi transformado de repente, numa deliciosa experiência sensorial percebida pelas minhas emoções... Felicitei o meu entendimento aguardando que a luz voltasse para que eu pudesse adentrar a minha casa.
Em meio a tudo isso, suas palavras rodopiavam ainda dentro dos meus ouvidos tal qual o pó dançava no ar depois de agitado por um veículo possante atravessando uma estrada de terra. Imaginei-me segurando uma porção de terra e devolvendo-a livremente ao chão...
Depois desses anos todos, era a primeira vez de modo tão veemente que uma sentença acusatória como foi a sua, me exasperasse tão prontamente vinda de outra voz que não a minha própria.
Acendeu-se de súbito a luz no coração me fazendo aquietar o meu espírito e proferi palavras que ouvi desde a infância, tranquilizadoras, resgatadoras asas atadas á confiança e ao labor da voz de minha mãe quando em dias de tempestade me acalmava... Fosse forte ventania, fosse escuro ao meio dia, fosse o que fosse, me protegia assegurado em poderosa esperança confiada.
Depois da tempestade a bonança vem sem demora... Já é hora, vem!

Marcos Segala

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